Candomblé
Paula Eloise dos Santos é graduanda em História pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e realiza pesquisa de Iniciação Científica no projeto Regime Militar ou Regime Civil-Militar? Interpretação historiográfica do governo militar no Brasil (1964-1985)

O Candomblé é uma religião afro-brasileira originada na Bahia do século XIX pelos escravos africanos de tradição Iorubá. Também conhecida por religião dos Orixás, possui outras denominações em diferentes regiões do Brasil como, por exemplo, Xangô em Pernambuco, Tambor-de-Mina no Maranhão e Batuque no Rio Grande do Sul. Segundo Prandi (2009), o Candomblé, até meados do século XX, designava-se como uma instituição de resistência cultural ao regime escravista e aos mecanismos de dominação branca e cristã.
Inicialmente o Candomblé se fez sincrético, estabelecendo relações entre as divindades africanas e os santos católicos porém, entre as décadas de 1960 e 1970, passou por um processo de africanização, visando um retorno às tradições através do reaprendizado da língua, dos ritos e da mitologia dos deuses africanos, abandonando então, os símbolos e as práticas do catolicismo a fim de preservar o patrimônio étnico dos descendentes de escravos.
O Candomblé é uma religião mágica de conhecimento e uso de forças sobrenaturais que tem por objetivo intervir nesse mundo, privilegiando os ritos. Caracterizada pelo terreiro, é formada por pequenos grupos direcionados pela mãe ou pai-de-santo, compondo a família-de-santo. Os membros de um terreiro são classificados em duas categorias, os iâos, que foram iniciados há pouco tempo, e os ebômis, os iniciados há muito tempo, capazes de realizar rituais complexos.
Desde sua criação o Candomblé sofreu inúmeras represálias e perseguições, inclusive da imprensa, como aborda Edmar Ferreira Santos em seu livro O poder dos Candomblés: perseguição e resistência no recôncavo da Bahia, onde retrata as publicações do jornal A Ordem em perseguição aos terreiros de Candomblé presentes na cidade de Cachoeirinha, no estado da Bahia. Além dessas perseguições, o Candomblé precisou se adaptar à ocidentalização, principalmente quanto a concepção de tempo. Reginaldo Prandi analisou que, na tradição Iorubá - fonte principal da matriz cultural do Candomblé brasileiro -, o tempo dependia única e exclusivamente da vontade dos Orixás. No contexto brasileiro, o tempo no Candomblé foi adaptado ao tempo do relógio e ao calendário cristão, modificando assim as estruturas e ritos iniciais.
O Candomblé pode ser trabalhado como uma forma de resistência dos escravos africanos à opressão do sistema escravista do século XIX, através do restabelecimento de conexão com suas tradições, fantasiado pelo sincretismo. Isso permite refletir sobre como a cultura brasileira possui densas raízes africanas, que devem ser valorizadas e debatidas, através da desconstrução de visões, do trabalho com a diversidade e do confronto com os preconceitos.
INDICAÇÕES DE MATERIAIS QUE PODEM TE AJUDAR A ENTENDER MAIS SOBRE O ASSUNTO
Materiais audiovisuais:
Jardim das folhas sagradas é um longa de ficção construída a partir de Bonfim, um bancário bem sucedido, negro e bissexual, casado com uma mulher branca e de crença evangélica. Ele vive na Salvador contemporânea e recebe a incumbência de montar um terreiro de Candomblé no espaço urbano. Para isso, enfrentará a especulação imobiliária numa cidade de crescimento vertiginoso, o preconceito racial e a intolerância religiosa. Este homem, embora questione a tradição da própria religião, tem a missão de montar um ambiente sagrado e de respeito à natureza, superando as contradições e conflitos trazidos pela modernidade.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
Atabaque Nzinga é um filme musical sobre a Cultura Afro Brasileira, cuja estrutura narrativa se traduz por um jogo de búzios, onde a protagonista Ana (Taís Araújo) chega atraída pelo "do tambor" em busca de seu auto-conhecimento e seu caminho. Pela estrada da percussão nas locações de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, Ana encontra diferentes ritmos, grupos musicais e coreográficos, experienciando sua integração na sociedade brasileira. O material filmado em Angola, África, onde no séc. XVII viveu e reinou a Rainha Nzinga, guerreira famosa, cujo nome serve de batismo à protagonista do filme, é uma referência e ilustra o passado da história do negro no Brasil.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
Casa de Santo é um documentário dirigido por Antonio Pastori, que traz como tema chave a influência dos rituais de terreiros de Candomblé, preservados pelo povo negro. As quatro nações da religiosidade de matriz africana estão retratadas com fidelidade e emoção. O filme percorre os principais terreiros das nações Jeje, Ketu e Angola e registra uma Festa de Caboclo, onde a raiz africana se mistura a influências indígenas e européias. Uma engenhosa tradução da diversidade étnica e cultural desta região da Bahia. O filme tem cenas inéditas de rituais que nunca haviam sido mostrados, terreiros que não haviam aberto as portas mesmo para os fotógrafos, deram licença para as câmeras deste documentário que mostra como os segmentos de cada nação são diferenciados pelo dialeto utilizado nos rituais, a liturgia e o toque dos atabaques. É em Casa de Santo que Pastori documenta pela primeira vez, o Terreiro do Pinho, que segue os preceitos Jeje e foi fundado em 25 de dezembro de 1658 numa área que hoje pertence ao município de Maragojipe, a 133 km de Salvador. A equipe pôde registrar o lugar onde fica o que pode ser o terreiro mais antigo do Brasil, de linhagem Jeje - o que muda a forma de contar a história da diáspora africana.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
Eu, Oxum é um documentário dirigido e roteirizado pela atriz e cantora Héloa e a pela cientista social e Yalaxé, Martha Sales, que conta a sua história e sua relação com o orixá Oxum, e com outras cinco mulheres "filhas" do mesmo orixá, incluindo a Yalorixá Maria José de Santana, responsável pelo "Ilê Axé Omin Mafé, mais conhecida como "Mãe Bequinha", que, também conta sua história, como a mais antiga "filha de Oxum" do município de Riachuelo, localizado na região do Vale do Cotinguiba-SE. São narradas imagens e memórias do processo individual e diferenciado de cada uma dessas mulheres, em idade, tempo de inserção na religião, relações de parentesco e as funções que ocupam dentro desse espaço sagrado, onde Héloa imergiu e se encontrou em sua busca de espiritualidade, força ancestral, e reafirmação da mulher negra, sergipana em uma caminhada religiosa e ancestral. O filme possui a trilha sonora assinada por Vinícius Bigjohn e Klaus Sena, com canções dedicadas ao Orixá Oxum por artistas contemporâneos a Héloa, trazendo o retrato do sagrado feminino personificado na figura do orixá Oxum e a natureza dos rios e mares, baseada na imagética, arquétipo, características e elementos da natureza, da simplicidade estonteante do lugar representado no filme.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
Morre Congo, fica Congo é um documentário sobre o Jongo Rural, uma manifestação oral-rítmica dos remanescentes de quilombos, com pontos falados, cantados e acompanhados de palmas e tambor, revelado pelos depoimentos dos seus cinco últimos mestres praticantes. Até os anos 1970 o Jongo Rural de Angra dos Reis mantinha a comunhão dos seus praticantes nos encontros de terreiro. Esses encontros foram desfeitos a partir de 1973, durante o governo do General Emílio Garrastazu Médici, com as obras da rodovia Rio-Santos; a construção das usinas nucleares e a especulação imobiliária, que desfizeram laços sociais, trouxeram violência e obrigaram famílias inteiras a migrar de bairros como Mambucaba, Itaorna, Frade e Grataú para o Morro do Carmo, no centro de Angra.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
O filho de Eru é um documentário que revela o cotidiano da comunidade Jarê, Candomblé de Caboclo presente na Chapada Diamantina, e os rituais sagrados em torno dos "encantados".
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
Hùndàngbènã - O Ninho da Serpente é um documentário que conta a trajetória do Mejitó Marcos de Gbesen: com o fechamento do terreiro onde foi iniciado no Rio de Janeiro, resolve ir atrás das raízes do Jeje-Mahi em Cachoeira-BA. Enfrente dificuldades e preconceitos por ser homem, branco e "estrangeiro", mas consegue ser aceito no Hunkpame Ayono Huntologi, roça de Gaiaku Luíza de Oyá. Anos depois lança o livro "Gaiaku Luiza e a Trajetória do Jeje-Mahi na Bahia" e finalmente inaugura seu terreiro em Duque de Caxias-RJ: o Hunkpame Hùndàngbènã: o Ninho da Serpente.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
1 em 500 mil: Ya Mukumby é um documentário que conta a história de Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumby, de 61 anos, Yalaorixá e militante do movimento negro há mais de 30 anos. Precursora do sistema de cotas nas universidades em Londrina, a mãe de santo Yá Mukumby vive a religião do Candomblé, onde recebe e acolhe, em sua casa, pessoas necessitadas e trabalha para harmonizá-las com seus respectivos elementos.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme.
1912: o Quebra de Xangô relata o ato de violência praticado em 1º de fevereiro de 1912 contra as casas de culto afrobrasileiras de Maceió e que se estendeu pelo interior de Alagoas. Naquele dia, babalorixás e yalorixás tiveram seus terreiros invadidos por uma milícia armada denominada Liga dos Republicanos Combatentes, seguida por uma multidão enfurecida, e assistiram à retirada à força dos templos, de seus e objetos de culto sagrados, que foram expostos e queimados em praça pública, numa demonstração flagrante de preconceito e intolerância religiosa para com as nossas manifestações culturais de matriz africana.
CLIQUE AQUI para acessar esse filme,
Indicações de textos
BENISTE, José. As águas de Oxalá. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 10° ed.
_________. Òrum Àiyé: o encontro de dois mundos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
COSSARD, Giselle. Awô: o mistério dos Orixás. Rio de Janeiro: Pallas, 1° ed.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo. Companhia das Letras, 2000.
SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagô e a morte. Petrópolis: Vozes, 2012.
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 2005.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA NO VERBETE
PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados v.18, n°52, 2014, p. 223-238
_______. O candomblé e o tempo: concepções de tempo, saber e autoridade da África para as religiões afro-brasileiras. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.16, n° 47, out./2001
SANTOS, Edmar Ferreira. O poder dos candomblés: perseguições e resistência no recôncavo da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2009
SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2009.